Hospedeiros da extrema-direita | Cecília Honório

outubro 18, 2022 0 Comentários A+ a-

A vitória de Meloni fez tremer o tabuleiro onde a nova extrema-direita tem empurrado a direita tradicional e o centro político para a direita, e o voto do ressentimento trouxe o sabor amargo da derrota da ideia de uma Europa de democracia.

A exigência dos dias é inversa à espuma criada por políticos e jornalistas, de centro e de direita, sobre a “normalização” da extrema-direita, esgotando a utilidade do conceito. Como se o PSD não tivesse dado governo à extrema-direita e não continuasse incapaz de lhe dizer não, ou como se o PS não tivesse nela interesse para assegurar a hegemonia centrista. E como se não tivessem sido hospedeiros da carraça, titubeiam, talvez anémicos, mas ainda esperançosos que o apertão aos fundos por parte da UE a aguente.

Alguns fazem de conta que não alinharam com um dos mais eficazes instrumentos de normalização da extrema-direita: usar e banalizar os seus próprios termos, a sua agenda, as suas leituras. Deixo dois exemplos.

Talvez como eu se tenha espantado com a designação da coligação Meloni/Salvini/Berlusconi, por jornais e televisões, de cá e de lá, como “centro-direita”. Onde está o centro nesta coligação? Deram eco à classificação que os próprios se atribuíram para contaminarem o espaço eleitoral. Foi conivência ou réplica acrítica? Chamarão o mesmo a Montenegro e Ventura? Mudar os nomes dos lugares no tabuleiro político é ajudar a hospedar a extrema-direita.

Vem outro exemplo a propósito da afirmação que a luta feminista “deixou no século XXI de marcar uma divisão clara do ponto de vista ideológico” (Pedro Tadeu, no DN de 28/9/2022), porque tem duas mulheres a liderar, em França e Itália, e quando a culpa da “esquerda social-democrata” foi abraçar estas causas e abandonar a classe trabalhadora.

A desistência da social-democracia é conhecida e não exige exemplo fora de portas, bastando olhar para a política de salários e pensões da maioria absoluta do PS, qual nêspera murcha, seis meses depois. Mas afirmar que as lideranças femininas da extrema-direita esvaziam a luta feminista, e o seu espaço de disputa à esquerda, ajuda a normalizar a extrema-direita.

Não que se deva desvalorizar estas lideranças e o seu valor instrumental. Elas, as “Mães“ e representantes da Nação, contam para amenizar os extremismos das suas formações, temperar a imagem dos seus partidos, ocultar as pontas aguçadas da ideologia que perfilham, recrutando homens e mulheres. Foi este o papel de Meloni na campanha e esta fórmula parece ter contribuído para secar o eleitorado das duas formações concorrentes, sem aumentar de forma expressiva o voto na extrema-direita.

Elas são úteis porque os partidos de extrema-direita são originariamente partidos de homens, com retórica e sociabilidade hipermasculinas, que precisam de saltar o degrau de género e ganhar o voto das mulheres para ocupar o “mainstream”. Há fatores específicos nas fórmulas de Le Pen e Meloni, e no seu sucesso, mas o “gender gap” foi ultrapassado em França, nas eleições de 2016, e os dados sobre Meloni apontam para o peso do voto das mulheres, reforçando a tendência das eleições de 2018.

Elas são tão filhas do sistema como eles. Meloni ocupa cargos políticos desde jovem e não lhe é reconhecida experiência profissional ou política para um futuro governo. Mas de lá chegam sinais de alerta, como a retirada de uma pílula abortativa das regiões controladas pelo partido e o favorecimento do movimento antiaborto.

As líderes e as novas protagonistas de extrema-direita até poderão falar da conciliação trabalho/família, ou dos incentivos à maternidade, mas são veículos da agenda antifeminista constituinte destas formações. Defensoras radicais da família tradicional, condenam a igualdade; crentes do “complot demográfico”, erguem a bandeira da maternidade contra a destruição das raízes europeias, culpando migrantes e refugiados, e podem colocar o movimento anti-IVG no coração da Europa. A ameaça é real, pelo que a luta feminista não só não se diluiu como será mesmo uma das mais importantes exigências na defesa da democracia.


Artigo de Cecília Honório, publicado originalmente no jornal Público, a 8 de Outubro de 2022.