Reconfiguração da extrema-direita: uma análise da composição eleitoral dos Fratelli d’Italia e da Lega depois das eleições nacionais italianas de 2022 | Giuseppe Cugnata


As eleições italianas de 2022 foram ganhas pela coligação de direita. No entanto, esta vitória esconde divisões internas profundas. Uma análise das transferências eleitorais mostra que enquanto o partido pós-fascista
Fratelli d’Italia (FDI), liderado pela primeira-ministra Giorgia Meloni conseguiu 26% dos votos, fê-lo principalmente à custa dos aliados Forza Italia (partido de Silvio Berlusconi) e da Lega de Matteo Salvini, particularmente nos redutos do norte de Itália.

 

A análise da composição socioeconómica dos dois partidos revela uma diferença entre os FDI e a Lega: o primeiro obteve votação especialmente nas classes médias, enquanto o segundo preservou parte do eleitorado popular, perdendo eleitorado “tradicional” – trabalhadores independente e empresários. Por fim, a análise do posicionamento ideológico mostra que o voto nos FDI e na Lega está totalmente enraizado no campo da direita.


Hospedeiros da extrema-direita | Cecília Honório


A vitória de Meloni fez tremer o tabuleiro onde a nova extrema-direita tem empurrado a direita tradicional e o centro político para a direita, e o voto do ressentimento trouxe o sabor amargo da derrota da ideia de uma Europa de democracia.

Itália: numa democracia moribunda, vence a extrema-direita | David Broder

Fonte: Wikimedia Commons

As eleições em Itália permitiram um novo avanço da extrema-direita e constituíram mais um indicador da radicalização da direita. A coligação das direitas obteve um resultado de 44%, mas o grande vencedor é o partido Fratelli d'Italia de Giorgia Meloni, com um resultado de 26% muito superior aos 4% que obteve em 2018.


SARA R. FARRIS | Keynote Speaker | Sessão de Abertura da Conferência Feminismo e o Combate à Extrema-Direita | 14 Maio, às 10h

Sara R. Farris. Foto de www.iire.org

SARA R. FARRIS é socióloga e professora na Goldsmiths, University of London, e o seu notável trabalho de investigação é reconhecido internacionalmente. O seu pensamento e obras publicadas indicam uma especialização nos campos da Teoria Social e dos Estudos de Género, abrangendo temas como o das Migrações e o da Reprodução Social ou dos Cuidados.

Tem vários artigos publicados em revistas académicas importantes e também vários livros, tendo especial relevo as obras In the Name of Women’s Rights. The Rise of Femonationalism (Duke University Press, 2017) e Max Weber’s Theory of Personality. Individuation, Politics and Orientalism in the Sociology of Religion (Brill 2013).

O seu trabalho de investigação tem sido financiado pelo Instituto de Estudos Avançados, em Princeton (EUA), pela Comissão Europeia, através dos programas Daphne III e Marie Curie, e também pela instituição britânica Leverhulme Trust.

Sara R. Farris é também uma ávida leitora de romances feministas. A sua recensão sobre o quarteto da escritora Elena Ferrante foi incluída no National Theatre Programme que reúne adaptações dramáticas do livro A Amiga Genial (Relógio d’Água, 2014).

Em nome dos direitos das mulheres?


Destaca-se o seu estudo sobre a mobilização de temas feministas por parte de partidos nacionalistas e de extrema-direita, dentro das suas campanhas anti-imigração e islamofóbicas, um fenómeno que cunhou originalmente como femonacionalismo. Trata-se de um termo que condensa a formação ideológica inerente a um “nacionalismo feminista e femocrático”. Na sua investigação, Sara R. Farris deu uma particular atenção às ações, campanhas e discursos de três partidos, em três contextos nacionais diferentes, como o Partido Pela Liberdade (Holanda), a Frente Nacional (França) e a Liga Norte (Itália). No entanto, a sua análise estende-se ainda às posições assumidas por algumas feministas, “femocratas” e organizações pela Igualdade de Género, bem como por representantes de correntes políticas neoliberais, dado que estes dois campos também coincidem no mesmo fenómeno.

No seu livro In the Name of Women’s Rights. The Rise of Femonationalism (2017), Farris demonstra-nos, com elevado rigor de inquirição empírica e complexidade teórica, como estes três distintos atores políticos – nacionalistas, algumas feministas e neoliberais - exemplificam uma heterogénea e contraditória convergência na invocação da igualdade de género como meio de produção e legitimação de um discurso e práticas xenófobas, particularmente anti-muçulmanas. Com esta estratégia, estes têm avançado com os seus próprios objetivos e interesses políticos, os quais são eminentemente avessos a uma agenda emancipatória e universalista.

Segundo Farris, a estratégia femonacionalista baseia-se sobretudo na assumpção de que os homens e as mulheres muçulmanas são os principais representantes do binómio opressor-vítima, que depois é projetado e generalizado aos migrantes do sul-global. Por outro lado, este mesmo binómio opressor-vítima tem alimentado as representações e os estereótipos implantados durante o passado colonial dos três países em análise e que são também uma parte dos reportórios racistas mais comuns. Porém, a autora avisa claramente que a sua crítica ao retrato europeu das mulheres muçulmanas, enquanto vítimas paradigmáticas do patriarcado não-ocidental, não nega, em momento algum, a desigualdade e a repressão a que estas mulheres são sujeitas, tal como o são as mulheres inseridas noutros contextos culturais, sociais e nacionais. Particularmente original e relevante, do ponto de vista político, é o facto do seu estudo explorar as importantes dimensões político-económicas que são, na Europa Ocidental, a incontornável base destas paradoxais intersecções.



Parte da informação biográfica aqui descrita foi traduzida por Sofia Roque, a partir do perfil da autora, publicado no site da Goldsmiths, University of London. A apresentação dos temas do livro In the Name of Women’s Rights. The Rise of Femonationalism também é da sua autoria.
 

Informações e programa da Conferência Internacional - Feminismo e o Combate à Extrema-Direita disponíveis aqui.


PROGRAMA | Conferência Internacional - Feminismo e o Combate à Extrema-Direita | 14 Maio

 



A entrada é livre, sujeita a inscrição. 
FORMULÁRIO PARA INSCRIÇÃO aqui: https://forms.gle/UDetz7sB2fZporTR7
 
 

Em nome dos Direitos das Mulheres? | Andrea Peniche


Em 2017, Sara R. Farris publicou o livro In the name of women rights. The rise of femonationalism. No livro, a autora, que investiga sobre mulheres migrantes e muçulmanas na Europa, analisa a convergência de três agendas políticas – nacionalismo (de direita), feminismo e neoliberalismo – em torno de políticas islamofóbicas, cunhando, nesse processo, o termo femonacionalismo. Com ele, procura explicar a instrumentalização do feminismo a favor de políticas que este, à partida, recusaria.


14 Maio | Lisboa | Conferência Internacional - Feminismo e o Combate à Extrema-Direita

 


No próximo dia 14 de Maio, na Faculdade de Direito da Univ de Lisboa (Anf. 9), o Observatório da Extrema-Direita (OED) promove a conferência internacional “Feminismo e o Combate à Extrema-Direita”.  A sessão de abertura, às 10h, contará com SARA R. FARRIS, autora do livro In the Name of Women's Rights: The Rise of Femonationalism.

Radiografia da extrema-direita espanhola | Amelia Martínez-Lobo



“De los Neocón a los Neonazis, la derecha radical em el Estado español” é um livro editado pela Fundação Rosa Luxemburgo – Madrid e coordenado pelo jornalista Miquel Ramos e pela advogada Nora Rodrígues.

 


Este livro é uma cartografia minuciosa da ultradireita espanhola que pretende fornecer, não só chaves para a análise, mas também uma descrição detalhada de todo o cosmos da extrema-direita no Estado Espanhol.

O fascismo existe no Estado Espanhol? Existem crimes de ódio? Existem assassinatos motivados por ódio racial ou por motivações políticas? Assistimos a um retrocesso da conquista dos direitos das mulheres? O partido Vox é fascista? O Vox tem um sindicato; é um partido trabalhista? Que mais existe à direita do Vox? Como combatemos a extrema-direita? Quais são as suas alianças internacionais? A extrema-direita do Estado Espanhol parece-se com a da Le Pen, Salvini, Bolsonaro ou Trump?

Assim começa esta extensa publicação. Com mais perguntas do que respostas. E este livro dá respostas. Mas também sistematiza todo um conhecimento que, durante décadas, jornalistas activistas e investigadores e investigadoras comprometidas com a luta antifascista, têm monitorizado e trazido à luz do dia. Por isso, esta investigação nasce com a vocação de perdurar no tempo, de ser um lugar de referência e um manual de consulta.

Recentemente, obtivemos num inquérito algumas conclusões muito preocupantes: um em cada cinco jovens em Espanha acredita que a violência masculina não existe, duas vezes mais do que há quatro anos atrás. Quando falamos de batalha cultural ou disputamos a narrativa, não é por razões simbólicas. São questões cruciais porque são as que preparam o caminho dos avanços ou dos retrocessos nas conquistas sociais. Como disputar a narrativa da extrema-direita? Como combater as notícias falsas e seus altifalantes nos principais meios de comunicação social? Como confrontar a sua propaganda? Por estas razões, há vários capítulos dedicados aos media, à guerra cultural e às guerras de género. Ainda, esta obra colectiva vai além da expressão parlamentar da extrema-direita: o partido VOX. Aborda em profundidade as ligações ao fundamentalismo religioso, à extrema-direita clássica, aos filofranquistas nostálgicos, a grupos neonazis, às notícias falsas, as ligações internacionais, até os seus tentáculos no mundo do futebol, nas redes sociais, em influencers, e em espaços de criação de pensamento, como fundações e lobbies. Por outras palavras, neste livro disseca-se toda a trama do universo da extrema-direita sem a qual se torna muito difícil compreender onde estamos e, acima de tudo, para onde vamos.


A apresentação completa do livro pode ser vista aqui.
A versão em pdf do livro pode ser descarregada aqui.


Por Amelia Martínez-Lobo, Gestora de projecto da Fundação Rosa Luxemburgo – Madrid e Directora de “De los Neocón a los Neonzis, la derecha radical em el Estado español”.




Deixa correr: como o jornalismo português noticiou a extrema-direita | Artigo de Ricardo Cabral Fernandes



Como podemos cobrir a extrema-direita sem a promover ou normalizar? Sem deixar que as suas mentiras ponham em causa os factos, a ciência e a democracia? O jornalismo português não soube dar resposta quando o mito da excecionalidade portuguesa caiu por terra em 2019. Entretanto, os casos de ameaças a jornalistas sucedem-se. 

Quatro Pontos sobre a Extrema-Direita em Portugal | Artigo de Fernando Rosas

Foto de Alisdare Hickson/ Flickr.
 

A extrema-direita, ou uma parte dela, está em emergência em Portugal. Logrou pela primeira vez em democracia eleger um deputado para o parlamento nas eleições de 2019 e, nas eleições presidenciais de janeiro deste ano, registou 11,9 % dos votos. Conduzindo uma guerra tóxica nas redes sociais, o partido Chega e o seu chefe, André Ventura, estão empenhados numa ofensiva de revisão ideológica reabilitadora da história do regime fascista, do colonialismo e da guerra colonial, ao mesmo tempo que falsificam grosseiramente a informação e insultam e caluniam as forças de esquerda antifascista que lhes fazem frente. Sabedora da iminência de alianças com os partidos da direita tradicional (já verificadas nos Açores), a extrema-direita, através de uma caótica e agressiva campanha ideológica de reabilitação do passado ditatorial e colonial sem precedentes desde o 25 de Abril de 1974, na realidade prepara ideologicamente o terreno e tenta abrir caminho para um regime autoritário de novo tipo em Portugal. Vale a pena observar este processo mais de perto procurando responder às quatro questões seguintes.