Debate - 30 de setembro, 18h, Casa do Brasil de Lisboa

 


Neste debate organizado pelo Observatório da Extrema Direita, Francisco Louçã e Carlos Santos são convidados a debater a situação política dos Estados Unidos da América, a partir da reflexão acerca da estratégia do burlão, ou do bufão, como ferramenta mediática de ascensão e poder.
A lotação é limitada e implica inscrição através do email: observatoriodaextremadireita@gmail.com

As Sociedades do Medo | Podcast

A partir de dois ensaios de Francisco Louçã publicados no Expresso, A Sociedade do Medo e A Estratégia do Bufão, o episódio desta semana do Podcast Convocar a História, de Fernando Rosas, tem como mote a instrumentalização do medo como estratégia política nos nossos dias. O medo, afirma Louçã, está hoje ao serviço do bufão. A apresentação e moderação ficaram a cargo de Fernando Rosas e Rita Lucas Narra.


Pode descarregar ou ouvir aqui.

O programa Convocar a História também está disponível via iTunes, Spotify, Deezer ou RSS.


A bolha das sondagens e o eleitor “típico” do Chega. Artigo de Cecília Honório

Por pouco relevante que tenha sido a última votação na extrema direita, a bolha das sondagens e o alarido dos comentários justificam atenção. Homem, branco, menos escolarizado, eis o eleitor “típico” dos partidos congéneres do Chega. Não sendo tão simples como parece, aqui ficam algumas referências úteis.
Artigo de Cecília Honório
"Eingemauerte Nazis" de Max Braun com licença CC BY-SA 2.0
Para Eric Fassin1, Trump conferiu existência e legitimidade política à versão sexista e racista da identidade masculina branca. Rejeitando o voto dos pobres em Trump, define-o como branco, masculino, menos diplomado, e evangélico. Jan-Werner Muller2 aceita que, a Ocidente, o perfil é masculino e menos escolarizado, mas alerta para o peso dos bem-sucedidos economicamente e o seu darwinismo social, ou para os casos da França e da Áustria, onde estes partidos comem de todos os outros e de todos os grupos sociais. Cas Mudde3 apresenta o eleitor “típico” - homem, branco, de educação moderada, mais novo e preocupado com a imigração - para reconhecer que a evolução destas formações, nas diferentes vagas que analisa, vai para além desta imagem. Os partidos de extrema-direita populista foram capazes de atrair com intensidade a pequena burguesia, os pequenos empresários; os que mais seduziram os trabalhadores traídos pela social-democracia, como a FN ou a FPO, também se reconfiguraram e, sobretudo na 4.ª vaga (a partir de 2000), as formações com maior sucesso foram a todos os sedimentos sociais, mantendo-se o “gap de género” uma singularidade, quer ao nível dos membros, quer, sobretudo, do eleitorado.

E por cá, o que sabemos sobre as intenções de voto no Chega? O que dizem os analistas?

Em fevereiro, o “retrato-robô” caía por terra. Pedro Magalhães, em trabalho solicitado pelo Expresso ao ISCTE/ICS4, rejeitava o “retrato-robô” do eleitor, considerando-o uma caricatura pouco útil. Cauteloso com a amostra (e poderia ter sido mais, considerando a ficha técnica) e partindo da sondagem que dava 6% ao Chega, desfazia o “eleitor-tipo”: metade dos que tencionavam votar eram mulheres; o partido não era para os mais novos (18-24 anos); o voto era urbano e o eleitorado mais politizado do que o da direita tradicional; 1/5 com curso superior, mais de 1 em cada 3 com ensino secundário, tudo acima da instrução média nacional, e em colisão com o “retrato-robô”.

Seis meses depois, o eleitor “típico” reaparece. Artigo do Público5, com base na sondagem da Católica para o Público/ RTP, de 23 de julho, dá conta que, afinal, os que têm intenção de votar no Chega são, sobretudo, homens, com o ensino secundário. Sustentando que a captação de voto não se faz à abstenção, mas aos outros partidos e, no caso do Chega, por transferência do PSD e do PS, os eleitores dos novos partidos (Chega da IL) seriam maioritariamente homens, colocando-se o Chega, nas faixas etárias entre os 25 e os 54 anos e com menor nível de escolaridade.

Na verdade, sabe-se tão pouco sobre o eleitor tipo quão mal se conhecem os processos de transferência de voto. É cedo para avaliar, e muita água correrá. O que se sabe é que, lá fora, estes partidos seduzem e recrutam menos as mulheres, considerando a sua lógica machista, a agenda antifeminista e anti-lgbti, o culto da família tradicional e o programa de destruição dos serviços públicos, pelo que estas são as agendas e as lutas que importam.


1 Populisme: le grand ressentiment, Textuel, 2017.
2 What is populism, University of Pennsylvania Press, 2016.
3 The Far Right Today, Potily, 2019.
4 Pedro Magalhães, “Quem quer votar no Chega”, Expresso, 15 de fevereiro de 2020.
5 Ricardo Reis e João António, “Chega e Iniciativa Liberal – partidos ascendentes no quadro político português”, Público, 6 de agosto de 2020.

Devemos responder a André Ventura? Artigo de Joana Louçã

Parte da esquerda ainda está a recuperar da desilusão com o país que tantos anos depois do 25 de Abril deixou de ser a exceção da Europa e elegeu um deputado de extrema direita. As respostas não se fizeram esperar e a cada declaração polémica segue-se uma reação imediata nas redes sociais. Mas será esta a melhor estratégia?
Artigo de Joana Louçã
Vergonha. Por Tiago Tavares.

Como surgiu André Ventura? 

O percurso de André Ventura é conhecido. Aos 14 anos batizou-se por iniciativa própria, decidiu ser padre e viveu num seminário em regime de internato até mudar de ideias. Estudou sempre em escolas públicas e um percurso academicamente irrepreensível levou-o, já funcionário público na Autoridade Tributária, a ser convidado a lecionar numa universidade pública e numa privada. Um percurso que parecia blindado para o sucesso, até os jornalistas terem começado a olhar para o seu passado e o castelo ter começado a abanar. Fernanda Câncio leu a sua tese de doutoramento e encontrou contradições evidentes, provável razão pela qual a tese só se encontrava na Biblioteca Nacional, onde é de entrega obrigatória. Ventura defendia em 2013 que o pânico social levou à “estigmatização de certas comunidades que foram associadas, de modo superficial, ao fenómeno terrorista” mas em 2016 já afirmava que “é fundamental reduzir drasticamente a presença e a dimensão das comunidades islâmicas dentro da União Europeia”. Poderia citar-se vários outros exemplos de mudanças radicais de opinião sobre a pena de morte, prisão perpétua ou abuso policial.

A personagem que é André Ventura começou a transparecer. Anos antes, quando começou a aparecer nos écrans da Benfica TV (dirigida pelo seu primo, Pedro Guerra, o famoso assessor no ministério de Paulo Portas que ganhava mais que o próprio ministro) e da Correio da Manhã TV, começou por apostar numa carreira literária. Escreveu dois romances (“Montenegro” e “A Última Madrugada do Islão”, ambos publicados na Chiado Editora) e na altura chegou a dizer que queria ser o escritor mais lido em Portugal: “adoro escrever. Quero ser um escritor cada vez melhor. Quero ser escritor até morrer. Quero morrer a escrever…”. Apesar da tendência para o exagero, parece ter desistido e passou a colocar as suas fichas noutro lado, com proveito.

Foi ganhando importância dentro do aparelho do PSD (partido do seu padrinho de casamento, Rui Gomes da Silva, ex-ministro de Santana Lopes e ex-vice-presidente do Benfica) e foi eleito para o Conselho Nacional na lista do seu amigo Sérgio Azevedo. Foi escolhido como cabeça de lista nas autárquicas em Loures (a sexta maior cidade do país) e garantiu que a sua campanha não passava despercebida. Terá encomendado um inquérito aos habitantes daquele município para perceber qual o tema fracturante na cidade. A relação com a comunidade cigana foi escolhida como tema central da campanha (“temos tido uma excessiva tolerância com alguns grupos e minorias étnicas”, “há minorias no nosso país que acham que estão acima da lei", “os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado”, etc.).

Azevedo foi vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, onde foi profícuo em escândalos: foi apanhado numa viagem à China oferecida pela marca Huawei, foi intitulado de “deputado do Benfica” por ter transmitido documentação interna do parlamento a responsáveis do Benfica, e, sobretudo, foi considerado o cabecilha de um esquema de corrupção e tráfico de influências ainda sob investigação pela Polícia Judiciária na operação “Tutti Frutti”. André Ventura continua a ser investigado neste caso, pela contratação de um falso assessor no seu gabinete de Loures.

O tempo passou e, no caso de André Ventura, foi bem aproveitado. Nas autárquicas de 2017, a sua candidatura obteve em Loures o melhor resultado do PSD em 20 anos, 21.5%, com mais 5 mil votos e um vereador que nas eleições anteriores. Em 2018 rompe com o PSD, no ano seguinte forma o Chega, nas eleições europeias concorre em coligação e obtém 50 mil votos no país, 1.5%. Volta a concorrer às legislativas, desta vez com o Chega a solo e o resultado foi a sua eleição com 22 mil votos em Lisboa, 66 mil no total do país.

O que defende o Chega?

Os primeiros tempos no parlamento correm como quer, mantendo o ritmo de polémica e a presença mediática, ao mesmo tempo que insiste num discurso simples e repetitivo: o governo é uma vergonha, o problema é do sistema e nem Marcelo Rebelo de Sousa se salva.

No entanto, numa análise mais profunda, o cavaleiro branco da extrema direita volta a fraquejar, novamente, quando confrontado com o que defendeu no passado. Desta vez, não é preciso recuar três anos, basta uns meses. Daniel Oliveira sintetiza aquilo que outros já tinham começado a referir: o programa eleitoral do Chega defende a destruição total do Estado Social e medidas ultra liberais muito além daquilo que qualquer outro partido defende nesse campo.

No seu programa, o partido defende que “ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam esses serviços de Educação ou de Saúde, ou sejam os bens públicos como vias de comunicação ou meios de transporte”. As funções sociais do Estado “devem tender para um estatuto de mera residualidade” e devem manter-se apenas quando não houver ninguém “a manifestar interesse na sua prestação”. “Mesmo na esfera das funções soberanas e principalmente na esfera das funções patrimoniais, os setores delegáveis deverão sê-lo sem qualquer hesitação”. Em suma, é preciso um "afastamento decidido do modelo do Estado Social e do regresso ao Estado Arbitral".

Na economia, o Estado deve ser apenas uma “entidade arbitral e reguladora”, nunca dinamizadora, e muito menos motora dessa atividade”. Ao Estado dá-se uma função “supletiva e/ou complementar”, mas só depois de “esgotadas todas as alternativas privadas, sociais, mutualistas ou cooperativas” na prestação de quaisquer serviços. No seu programa, o Chega especifica ainda que, ao Estado, não compete “a detenção direta ou indireta, maioritária ou minoritária, com golden-share ou sem ela, do capital social de qualquer empresa industrial ou de serviços”.

Resumidamente, “o princípio universal haverá de ser o do utilizador-pagador”. “Quem usufrui de bens ou serviços, qualquer que seja o seu produtor ou prestador, terá de os pagar”. Para isso, num primeiro momento, haveria Cheques-Ensino, Cheques-Habitação e Cheques-Saúde entregues às pessoas. O período de adaptação seria “gradual mas rápido” e, uma vez findo, cada pessoa paga integralmente pelos serviços que usa, excepto se tiver “absoluta, óbvia e provada incapacidade para uma normal subsistência”. Isto é, os pobres terão escolas só de pobres e hospitais só de pobres.

O Chega quer acabar com o Ministério da Educação e ceder as escolas a quem as queira explorar. “As instalações escolares passariam, num primeiro momento, para a tutela da Direção Geral do Património que, de seguida, as ofereceria a quem nelas demonstrasse interesse”. Nem o Ensino Superior escapa: “propomos que o Estado inicie um processo de privatização de parte das instituições universitárias e politécnicas que detenha”. Haverá um Cheque-Ensino de 350€ e as escolas que se mantiverem públicas poderão contratar quem quiserem, mas estarão “dependentes única e exclusivamente do cheque-ensino sem qualquer complemento concedido pelo Estado”. Além disso, “em todos os graus de ensino”, sublinha André Ventura, os professores “recuperam totalmente a autoridade perdida sobre os alunos, sendo-lhes devolvidos todos os meios que lhes permitam manter a disciplina nas aulas”.

Na saúde, a sua visão é a de substituição do SNS por um Mercado da Saúde, no qual o Estado ”não deverá, idealmente, interferir como prestador de bens e serviços”. O Ministério da Saúde passaria a ter meras funções de “arbitragem, de regulação e de inspeção”, começando, claro, por “promover a gestão privada dos hospitais públicos”. Mesmo se, no documento “70 medidas para reerguer Portugal”, o Chega propõe afinal “rever ou renegociar todas as PPPs lesivas ao erário público”. É aliás na área da Saúde que o Chega assume o seu perfil xenófobo ao limitar o direito a médico de família “a gente que nasceu em Portugal”.

Nos impostos, o Chega quer que o Estado deixe “de querer ser o Robin dos Bosques” e por isso quer abolir o IMI, o imposto de mais-valias e criar uma taxa única de IRS. Como explica na sua “Declaração de princípios e fins”, o “atual sistema de extorsão fiscal” está “transformado em terrorismo de Estado”. O dramatismo é acentuado no programa ao afirmar que “só voltaremos a ser livres, verdadeira e fundamentalmente livres” ao compreender “a escravidão sofisticada em que a filosofia e as políticas igualitárias nos têm vindo, insensível, mas tenazmente, a mergulhar”.

As propostas para o trabalho são previsíveis, considerando estar-se perante um político que aderiu ao programa da Troika: “flexibilização dos fluxos de entrada e saída da situação de empregado”, o que “só é possível se os custos de “empregabilidade” - salários, restrições legais, horários de trabalho rígidos, difícil acesso a informação, contribuições para a segurança social e custos de despedimento - forem reduzidos”. Por último, André Ventura aponta baterias aos “inquilinos idosos que residem sozinhos em casas arrendadas sobre-dimensionadas”. Como? Pois, de forma a “incentivar e apoiar” a sua “mobilidade” o Chega propõe a “renegociação destes contratos”, mas “mantendo a freguesia de residência se assim o desejarem”, para “disponibilizar no mercado imobiliário maiores casas para as famílias”.

Claro que destruir o SNS, a escola pública, baixar salários, diminuir a carga fiscal dos ricos e despejar idosos não tem o mesmo eco que papaguear injúrias contra minorias étnicas. Ventura pôs os pés pelas mãos, retirou o programa do site, depois voltou a publicá-lo, mas anunciou que o iria rever no congresso do partido. Tal como os partidos “do sistema”, depois das eleições o Chega dá o dito por não dito. A originalidade de André Ventura é que, depois das eleições altera o programa eleitoral!

Como responder a André Ventura?

O Chega é um partido que quer que os ricos fiquem mais ricos e os pobres mais pobres mas que o defende de forma atabalhoada e sem coerência. Vejamos a discussão parlamentar sobre saúde. Apesar do proposto no programa do Chega, Ventura defendeu que era preciso mais reforços para o SNS. Ou o exemplo dos Vistos Gold, o famoso esquema de venda de autorizações de residência, que tem sido duramente criticado por instituições como o Parlamento Europeu e a Transparência Internacional por promover a corrupção, a lavagem de dinheiro e aumentar a insegurança. Quando a Assembleia da República votou uma proposta que previa o fim dos Vistos Gold o Chega, que apregoa recorrentemente o combate à corrupção e à insegurança, votou contra. Depois disso, veio a público que Ventura acumula o cargo de deputado com o de consultor da Finparter, uma empresa especializada na aquisição de vistos gold e imobiliário de luxo. Em suma, em termos de políticas económicas e sociais o Chega defende tudo e o seu contrário e quanto mais se souber o que realmente defende, pior para ele.

Quanto a André Ventura, o seu ponto fraco é a obsessão pela fama. Pela via falhada da prosa, dos comentários futebolísticos (chegou a anunciar uma candidatura à direção do Benfica, juntamente com Rui Gomes da Silva) ou da política xenófoba, Ventura está disposto a tudo. Alguém que se refere a si próprio na terceira pessoa dirá o que for preciso para se manter na ribalta. Mas a verdade é que é, ele próprio, um exemplo daquilo que condena. Foi dirigente do maior partido da troika e da austeridade. Ventura não tem nada de antissistema, tal como não tem nenhuma coerência.

Sabendo tudo isso, Ventura vai continuar a tentar criar clivagens sociais sobre imigrantes e minorias, apostando desde logo nos setores das forças de segurança empenhados em manter o atual quadro de impunidade dos abusos de força. A resposta imediata e feroz a cada provocação que Ventura lança é um erro, sobretudo nas redes sociais, onde os seus seguidores se organizam disciplinadamente para inundar posts e caixas de comentários. É a partir de discursos de pânico assentes frequentemente em sites de notícias falsas que partidos de extrema direita como o Chega conseguem criar ambientes distorcidos, aparentando uma força muito maior do que a que têm. Foi assim que, em Espanha, o Vox saiu da marginalidade política.

A luta antirracista, antissexista, pelos direitos LGBT+, a luta pela igualdade, a luta pelos direitos humanos é a luta unitária da esquerda, é uma luta quotidiana, não em oposição a cada provocação da extrema-direita mas em oposição ao capitalismo. Em oposição ao racismo estrutural, ao racismo sistémico, ao racismo subtil, ao racismo assumido, a todos os tipos de discriminação e desigualdade que são inerentes ao capitalismo.

O crescimento da extrema direita não pode ficar sem resposta. Mas vejamos e aprendamos com os exemplos das campanhas contra Bolsonaro ou Trump. Perante o descrédito dos partidos tradicionais, a elite económica aprende a tolerar ou decide mesmo deixar-se representar pelo populismo reacionário: a globalização capitalista precisa de uma democracia menor, fechada em medos particulares e aspirando a autoridade. Essa é a direita que o Chega quer ser - e a forma como CDS e PSD têm mimetizado as derivas de Ventura, mostra que a direita portuguesa passará por mudanças como as que já ocorreram noutros lugares. Quando à esquerda, se ficar à defesa, respondendo a cada provocação da extrema direita nos temas que esta escolhe, ficará refém de si mesma. Pelo contrário, poderá vencer a direita regressiva se afirmar um programa claro de emancipação, em choque com o regime económico de precariedade, corrupção e devastação ambiental.

Marchi e a normalização da extrema-direita. Artigo de Cecília Honório

Cecília Honório
O tribalismo desculpatório que aconchega o Chega revela simplesmente a razão do seu sucesso: estes analistas condescendentes ou estão fascinados ou ficam calados com uma extrema-direita que, à força de imitar Abascal e Bolsonaro, consegue presença suficiente para condicionar o futuro da direita.

Ventura vende, desta feita pela mão do reputado investigador Riccardo Marchi, com a obra A Nova direita anti-sistema. O caso do Chega. Este texto é sobre a sua forma e alguns dos seus conteúdos, porque nem sempre a escrita enxuta e a informação abundante clareiam o compromisso deste livro.

Tomemos as coisas pelo que elas dizem ser: este livro não se assume como trabalho académico, mas como “ensaio”. Assim sendo, recorro ao artigo do Ciberdúvidas e aproveito Montaigne: “eu sou a matéria do meu livro.” Este livro é sobre o que Marchi sabe e queria saber; tem o tempo certo, antes da reconfirmação de Ventura como chefe do partido e no arranque da campanha para as presidenciais; é sobre a surpresa do investigador, que esperava um “empresário” para a captação da “demanda populista” nacional, ao invés de um filho dos subúrbios e do PSD. Este livro é sobre a dúvida que o investigador queria ver satisfeita, tal como Ventura: o partido ultrapassará o “one man show” e poderá ser o 3.º ou 4.º mais votado, já em 2023?

Fica, talvez, mais fácil encontrar Ventura através de Marchi. Muito mais humanizado do que imagens televisivas histriónicas, ele é filho da formação católica e dos subúrbios, em nome dos quais pode falar por saber bem o que é a insegurança; é combativo, persistente, tem uma intuição política ímpar e uma enorme capacidade de gerir tensões internas; é exímio comunicador e é pragmático, escreve Marchi. O Chega “é o projeto do André”, que, hostilizado pela comunicação social, está mais preocupado com a gestão da imagem e da comunicação do que com a cartilha ideológica, porque sabe que não é como líder de um partido de “extrema-direita” que alcança o que quer: reconfigurar a direita clássica e comer espaço ao PSD.

Deixando o líder, por ora, importa a classificação do partido e o empolamento da sua “novidade”. Marchi insere o Chega nos partidos populistas de direita radical, descolando-o da extrema-direita, pela distinção entre mudança por dentro e mudança por meios violentos. Esta é, aliás, uma distinção cara à Ciência Política. Esta é, também, a vocação confirmada pelos fundadores/as do partido, no quadro do forte pendor testemunhal da obra. Momento para questionar a operacionalidade histórica e política desta divisão, uma vez que nem a direita clássica é, nas democracias liberais ocidentais, reconfigurável com a suástica ao peito, e o historiador Enzo Traverso explicou bem, na sua leitura do pós-fascismo, esta necessidade de normalização, com o exemplo de Marine Le Pen, nem o adjetivo é isento, quando é auto-classificativo. Leiam o programa do Chega e as palavras de Diogo Pacheco de Amorim: se o radical é o que vai à raiz dos problemas para os resolver, o extremista é o que liquida o mundo real para salvar o seu (p. 9). Pergunte-se, então, à Ciência Política se a adjetivação “radical” não é o que interessa aos Venturas deste tempo, por lhes conceder a credibilidade que anseiam, favorecendo o “mainstream”.

Sobre a “novidade”, Marchi aceita a autoimagem expressa no programa do Chega – um “partido verdadeiramente novo”. Inúmeras expressões o atestam, a começar pelo início – o caso de “André Ventura com o seu Chega é inovador e único” (p. 19). Ora, nem o Chega é assim tão diferente das outras formações europeias, nem é “verdadeiramente novo”. Se o fosse, as obras de Jaime Nogueira Pinto não eram fundamentais na formação de Ventura, como Marchi não se cansa de sublinhar, nem Diogo Pacheco de Amorim era o homem do programa, vice do partido e membro do grupo parlamentar, demonstrando o peso da “Nova Direita” dos anos 80. Reconheça-se, ainda, que é o facto de estas formações estarem demasiado presas às suas especificidades nacionais que dificulta o sonho de Bannon sobre a internacional de extrema-direita. O mofo doutrinário também se pode encontrar nos escassos nomes de autores do século XX referidos no programa, como Von Mises e Hayek, dois patriarcas do neoliberalismo, sobre os quais Marchi escolhe esquecer o convívio com as ditaduras e a simpatia para com Pinochet ou Salazar.

A “novidade” está no poder comunicacional do homem. Mas não se espere qualquer análise sobre a instrumentalização ou sobre a “ventriloquia”, cara ao populismo – dizer uma coisa e o seu contrário, dizer uma coisa e fazer o seu contrário. Nem uma palavra sobre o valor instrumental das provocações, da convocatória da raiva, que põe o coração na boca, promove a identificação e a fusão ao alcance de um “like”, e permite as palavras do militante do Chega sobre Ventura: “Quando o oiço, oiço-me a mim” (p. 109).

A “novidade” está, também, presa à identidade “antissistema” do partido e à construção do mesmo. O Chega é um partido antissistema porque quer construir a IV República e mudar a Constituição, e populista porque quer combater a elite corrupta, afirma o autor. No espetro dos alvos a abater, o autor bem podia colocar a esquerda (com a sua “cultura de morte” e o seu “marxismo cultural”), mas escolhe não o fazer. Também não se pergunta o que é ser “antissistema” e viver dele. André Ventura entrou no PSD aos 14 anos, teve 20 anos de partido, é professor universitário, consultor de uma empresa, deputado, secundado por um núcleo duro, em boa parte feito de gente que veio do PSD e CDS, sem esquecer que o estudo da sua rede de amigos, padrinhos e relações daria um excelente livro sobre “o sistema”. Junte-se a constante abordagem da “hostilidade” da comunicação social ou os perfis falsos reduzidos a boato e percebe-se melhor o compromisso deste ensaio com a normalização do Chega de Ventura. Talvez por isso os seus defensores abdicaram de sustentar as conclusões da obra e limitaram-se a chorar um putativo desejo censório de quem não consegue reconhecer-se nesta operação justificativa. No caso, o tribalismo desculpatório que aconchega o Chega revela simplesmente a razão do seu sucesso: estes analistas condescendentes ou estão fascinados ou ficam calados com uma extrema-direita que, à força de imitar Abascal e Bolsonaro, consegue presença suficiente para condicionar o futuro da direita.

Publicado originalmente no Público a 16 de julho de 2020.

Manuel Loff, RTP2 | 15 de julho 2020



Fascismos - Debate com Fernando Rosas e Luca Argel | 28 de maio de 2018


Manifesto

O Observatório da Extrema Direita (OED) junta pessoas comprometidas no conhecimento e intervenção face aos avanços da extrema-direita a nível internacional e ao seu impacto em Portugal.

Se o ruído pode hiper-valorizar realidades, o silêncio também é perigoso, porque conivente. É por isso que o OED é um projeto de reflexão crítica, comprometido com a defesa da democracia e com as exigências da investigação, da divulgação, da intervenção.

É um projeto plural que junta pessoas com percursos vários, da academia, da comunicação social, dos ativismos, e que propõe fazer todos os debates que os dias impõem: o que é a nova extrema-direita? O que tem de "velho"? Quem são os seus protagonistas que se dizem fora do sistema e vivem do sistema? Qual é a sua agenda e os meios de propagação das suas ideias? De que forma se alimenta do racismo, da xenofobia e do conservadorismo? Qual o seu programa económico? Quem são os seus eleitores e eleitoras? Vieram para ficar ou são fenómenos devedores da volatilidade?

Sabendo que em Portugal, 63% das pessoas afirmam aceder à informação através das redes sociais e que há seis milhões de contas de Facebook, interessa-nos discutir também quem cria as fake news, porque é que a extrema direita crescer com elas e que estratégias adotar perante esse problema.

Subscrições

Andreia Galvão
Cecília Honório
Fabian Figueiredo
Fábio Salgado
Fernando Rosas
Joana Louçã
João Mineiro
José Manuel Pureza
José Sobral
Manuel Loff
Paulo Pena
Rita Narra