SARA R. FARRIS | Keynote Speaker | Sessão de Abertura da Conferência Feminismo e o Combate à Extrema-Direita | 14 Maio, às 10h

Sara R. Farris. Foto de www.iire.org

SARA R. FARRIS é socióloga e professora na Goldsmiths, University of London, e o seu notável trabalho de investigação é reconhecido internacionalmente. O seu pensamento e obras publicadas indicam uma especialização nos campos da Teoria Social e dos Estudos de Género, abrangendo temas como o das Migrações e o da Reprodução Social ou dos Cuidados.

Tem vários artigos publicados em revistas académicas importantes e também vários livros, tendo especial relevo as obras In the Name of Women’s Rights. The Rise of Femonationalism (Duke University Press, 2017) e Max Weber’s Theory of Personality. Individuation, Politics and Orientalism in the Sociology of Religion (Brill 2013).

O seu trabalho de investigação tem sido financiado pelo Instituto de Estudos Avançados, em Princeton (EUA), pela Comissão Europeia, através dos programas Daphne III e Marie Curie, e também pela instituição britânica Leverhulme Trust.

Sara R. Farris é também uma ávida leitora de romances feministas. A sua recensão sobre o quarteto da escritora Elena Ferrante foi incluída no National Theatre Programme que reúne adaptações dramáticas do livro A Amiga Genial (Relógio d’Água, 2014).

Em nome dos direitos das mulheres?


Destaca-se o seu estudo sobre a mobilização de temas feministas por parte de partidos nacionalistas e de extrema-direita, dentro das suas campanhas anti-imigração e islamofóbicas, um fenómeno que cunhou originalmente como femonacionalismo. Trata-se de um termo que condensa a formação ideológica inerente a um “nacionalismo feminista e femocrático”. Na sua investigação, Sara R. Farris deu uma particular atenção às ações, campanhas e discursos de três partidos, em três contextos nacionais diferentes, como o Partido Pela Liberdade (Holanda), a Frente Nacional (França) e a Liga Norte (Itália). No entanto, a sua análise estende-se ainda às posições assumidas por algumas feministas, “femocratas” e organizações pela Igualdade de Género, bem como por representantes de correntes políticas neoliberais, dado que estes dois campos também coincidem no mesmo fenómeno.

No seu livro In the Name of Women’s Rights. The Rise of Femonationalism (2017), Farris demonstra-nos, com elevado rigor de inquirição empírica e complexidade teórica, como estes três distintos atores políticos – nacionalistas, algumas feministas e neoliberais - exemplificam uma heterogénea e contraditória convergência na invocação da igualdade de género como meio de produção e legitimação de um discurso e práticas xenófobas, particularmente anti-muçulmanas. Com esta estratégia, estes têm avançado com os seus próprios objetivos e interesses políticos, os quais são eminentemente avessos a uma agenda emancipatória e universalista.

Segundo Farris, a estratégia femonacionalista baseia-se sobretudo na assumpção de que os homens e as mulheres muçulmanas são os principais representantes do binómio opressor-vítima, que depois é projetado e generalizado aos migrantes do sul-global. Por outro lado, este mesmo binómio opressor-vítima tem alimentado as representações e os estereótipos implantados durante o passado colonial dos três países em análise e que são também uma parte dos reportórios racistas mais comuns. Porém, a autora avisa claramente que a sua crítica ao retrato europeu das mulheres muçulmanas, enquanto vítimas paradigmáticas do patriarcado não-ocidental, não nega, em momento algum, a desigualdade e a repressão a que estas mulheres são sujeitas, tal como o são as mulheres inseridas noutros contextos culturais, sociais e nacionais. Particularmente original e relevante, do ponto de vista político, é o facto do seu estudo explorar as importantes dimensões político-económicas que são, na Europa Ocidental, a incontornável base destas paradoxais intersecções.



Parte da informação biográfica aqui descrita foi traduzida por Sofia Roque, a partir do perfil da autora, publicado no site da Goldsmiths, University of London. A apresentação dos temas do livro In the Name of Women’s Rights. The Rise of Femonationalism também é da sua autoria.
 

Informações e programa da Conferência Internacional - Feminismo e o Combate à Extrema-Direita disponíveis aqui.


PROGRAMA | Conferência Internacional - Feminismo e o Combate à Extrema-Direita | 14 Maio

 



A entrada é livre, sujeita a inscrição. 
FORMULÁRIO PARA INSCRIÇÃO aqui: https://forms.gle/UDetz7sB2fZporTR7
 
 

Em nome dos Direitos das Mulheres? | Andrea Peniche


Em 2017, Sara R. Farris publicou o livro In the name of women rights. The rise of femonationalism. No livro, a autora, que investiga sobre mulheres migrantes e muçulmanas na Europa, analisa a convergência de três agendas políticas – nacionalismo (de direita), feminismo e neoliberalismo – em torno de políticas islamofóbicas, cunhando, nesse processo, o termo femonacionalismo. Com ele, procura explicar a instrumentalização do feminismo a favor de políticas que este, à partida, recusaria.


14 Maio | Lisboa | Conferência Internacional - Feminismo e o Combate à Extrema-Direita

 


No próximo dia 14 de Maio, na Faculdade de Direito da Univ de Lisboa (Anf. 9), o Observatório da Extrema-Direita (OED) promove a conferência internacional “Feminismo e o Combate à Extrema-Direita”.  A sessão de abertura, às 10h, contará com SARA R. FARRIS, autora do livro In the Name of Women's Rights: The Rise of Femonationalism.

Radiografia da extrema-direita espanhola | Amelia Martínez-Lobo



“De los Neocón a los Neonazis, la derecha radical em el Estado español” é um livro editado pela Fundação Rosa Luxemburgo – Madrid e coordenado pelo jornalista Miquel Ramos e pela advogada Nora Rodrígues.

 


Este livro é uma cartografia minuciosa da ultradireita espanhola que pretende fornecer, não só chaves para a análise, mas também uma descrição detalhada de todo o cosmos da extrema-direita no Estado Espanhol.

O fascismo existe no Estado Espanhol? Existem crimes de ódio? Existem assassinatos motivados por ódio racial ou por motivações políticas? Assistimos a um retrocesso da conquista dos direitos das mulheres? O partido Vox é fascista? O Vox tem um sindicato; é um partido trabalhista? Que mais existe à direita do Vox? Como combatemos a extrema-direita? Quais são as suas alianças internacionais? A extrema-direita do Estado Espanhol parece-se com a da Le Pen, Salvini, Bolsonaro ou Trump?

Assim começa esta extensa publicação. Com mais perguntas do que respostas. E este livro dá respostas. Mas também sistematiza todo um conhecimento que, durante décadas, jornalistas activistas e investigadores e investigadoras comprometidas com a luta antifascista, têm monitorizado e trazido à luz do dia. Por isso, esta investigação nasce com a vocação de perdurar no tempo, de ser um lugar de referência e um manual de consulta.

Recentemente, obtivemos num inquérito algumas conclusões muito preocupantes: um em cada cinco jovens em Espanha acredita que a violência masculina não existe, duas vezes mais do que há quatro anos atrás. Quando falamos de batalha cultural ou disputamos a narrativa, não é por razões simbólicas. São questões cruciais porque são as que preparam o caminho dos avanços ou dos retrocessos nas conquistas sociais. Como disputar a narrativa da extrema-direita? Como combater as notícias falsas e seus altifalantes nos principais meios de comunicação social? Como confrontar a sua propaganda? Por estas razões, há vários capítulos dedicados aos media, à guerra cultural e às guerras de género. Ainda, esta obra colectiva vai além da expressão parlamentar da extrema-direita: o partido VOX. Aborda em profundidade as ligações ao fundamentalismo religioso, à extrema-direita clássica, aos filofranquistas nostálgicos, a grupos neonazis, às notícias falsas, as ligações internacionais, até os seus tentáculos no mundo do futebol, nas redes sociais, em influencers, e em espaços de criação de pensamento, como fundações e lobbies. Por outras palavras, neste livro disseca-se toda a trama do universo da extrema-direita sem a qual se torna muito difícil compreender onde estamos e, acima de tudo, para onde vamos.


A apresentação completa do livro pode ser vista aqui.
A versão em pdf do livro pode ser descarregada aqui.


Por Amelia Martínez-Lobo, Gestora de projecto da Fundação Rosa Luxemburgo – Madrid e Directora de “De los Neocón a los Neonzis, la derecha radical em el Estado español”.




Deixa correr: como o jornalismo português noticiou a extrema-direita | Artigo de Ricardo Cabral Fernandes



Como podemos cobrir a extrema-direita sem a promover ou normalizar? Sem deixar que as suas mentiras ponham em causa os factos, a ciência e a democracia? O jornalismo português não soube dar resposta quando o mito da excecionalidade portuguesa caiu por terra em 2019. Entretanto, os casos de ameaças a jornalistas sucedem-se. 

Quatro Pontos sobre a Extrema-Direita em Portugal | Artigo de Fernando Rosas

Foto de Alisdare Hickson/ Flickr.
 

A extrema-direita, ou uma parte dela, está em emergência em Portugal. Logrou pela primeira vez em democracia eleger um deputado para o parlamento nas eleições de 2019 e, nas eleições presidenciais de janeiro deste ano, registou 11,9 % dos votos. Conduzindo uma guerra tóxica nas redes sociais, o partido Chega e o seu chefe, André Ventura, estão empenhados numa ofensiva de revisão ideológica reabilitadora da história do regime fascista, do colonialismo e da guerra colonial, ao mesmo tempo que falsificam grosseiramente a informação e insultam e caluniam as forças de esquerda antifascista que lhes fazem frente. Sabedora da iminência de alianças com os partidos da direita tradicional (já verificadas nos Açores), a extrema-direita, através de uma caótica e agressiva campanha ideológica de reabilitação do passado ditatorial e colonial sem precedentes desde o 25 de Abril de 1974, na realidade prepara ideologicamente o terreno e tenta abrir caminho para um regime autoritário de novo tipo em Portugal. Vale a pena observar este processo mais de perto procurando responder às quatro questões seguintes.


De que falamos quando falamos das novas extremas-direitas? | Cecília Honório e João Mineiro

Aqui pode ler-se o capítulo introdutório do livro Novas e Velhas Extremas-Direitas (Parsifal, 2021), escrito por quem o coordenou, Cecília Honório e João Mineiro.

Nos últimos anos, a extrema‑direita voltou a ocupar as capas dos jornais um pouco por todo o mundo. Depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, de Bolsonaro no Brasil, do Brexit, da chegada de Matteo Salvini ao Governo em Itália, da consolidação de Viktor Orbán na Hungria e da aproximação ao poder de Marine Le Pen em França, dispararam‑se todos os alarmes sobre um fenómeno, que, por um lado, é difícil de catalogar e, por outro lado, não é algo novo, ainda que tenha sofrido transformações notáveis nas últimas décadas.

O surgimento, a consolidação, a reconfiguração e a expansão social, política e eleitoral de novos partidos e movimentos de extrema‑direita constituem a mais importante transformação política dos nossos dias e um dos principais desafios às democracias herdadas do pós‑guerra e, no nosso caso, da Revolução de 1974/75. Conhecer, investigar e escrutinar as características, a evolução e as estratégias destes partidos e movimentos foi o ponto de partida que juntou as autoras e os autores deste livro.

Nos nossos dias, há quem veja a afirmação das novas extremas‑direitas como uma mera repetição do fascismo histórico – posição que, no mínimo, consideramos imprudente, como se bastasse recorrer às experiências passadas da “época dos fascismos” para compreender as características políticas e históricas do presente. Outros, ainda, apresentam as novas extremas‑direitas como um fenómeno provavelmente passageiro, circunstancial e pouco preocupante, que as forças políticas do centro, fruto da sua suposta vocação moderada e universal, tratariam de remeter à irrelevância a partir do lugar referencial que acreditam continuar a ocupar nos sistemas políticos contemporâneos. Mas também há quem vá mais longe, guiado pelo processo de normalização em curso, argumentando que a extrema‑direita é uma mera expressão da própria pluralidade da democracia liberal, não constituindo uma ameaça à sua subversão. Nem lhe chamam extrema‑direita, rotulando‑a com outros eufemismos, por exemplo, “nova direita antissistema”, ocultando o singelo pormenor de que a generalidade dos seus líderes vem de dentro do sistema, sendo que em nenhum momento colocam em causa o capitalismo neoliberal e o sistema financeiro, antes pelo contrário.

Nas palavras de Riccardo Marchi, em Portugal um dos principais defensores desta tese, estes “são partidos que pertencem ao jogo democrático e cumprem as regras”, “faz parte do seu ADN, estão convictamente inseridos no paradigma da democracia liberal”, “não saem do modelo de democracia liberal que conhecemos, e que assenta na separação de poderes. Não são antidemocráticas”.

A estas perspetivas opomos três argumentos, amplamente desenvolvidos e debatidos neste livro, ainda que de forma plural. Primeiro, estas extremas‑direitas são fenómenos de tipo novo, que se afirmam em circunstâncias históricas particulares, apresentando alcances sociais, económicos, culturais e políticos distintos. Neste sentido, seguimos Enzo Traverso, quando este argumenta que o termo fascismo é simultaneamente desadequado e indispensável, já que estas novas forças tanto se afastam da retórica e da simbologia do fascismo histórico, como ao mesmo tempo dele são herdeiras, recrutando e reabilitando alguns dos seus quadros históricos, reatualizando o seu ideário cultural e replicando uma estratégia política nacionalista, autoritária, xenófoba, antiliberal e de ataque às conquistas do mundo do trabalho, ao Estado social e às políticas de igualdade, reconhecimento e redistribuição.

Em segundo lugar, as novas extremas‑direitas não são um fenómeno residual, assimiláveis pelas mágicas virtudes do centro político. Pelo contrário, elas são resultado das políticas desse mesmo centro, no quadro da cedência da social‑democracia ao neoliberalismo desde a década de 80 do século XX, e em particular no contexto das políticas de austeridade que, no pós‑crise financeira de 2008, acentuaram a destruturação do Estado social, a corrupção financeira e a precarização do trabalho e da vida da maioria. Sejamos ainda mais claros: as elites do centro querem agir como bombeiras de um fogo que elas próprias atearam e continuam a atear. É, pois, no caldo da crise do capitalismo, na sua fase neoliberal e financeira, que a extrema‑direita encontra espaço social de crescimento, perante a derrota histórica das alternativas de esquerda desde o final da década de 80 do século XXI e no contexto da liberalização, da financeirização e mercantilização das economias e das sociedades contemporâneas.

Finalmente, um terceiro aspeto que queremos destacar é que as novas extremas‑direitas não são inofensivas ou uma espécie de catarse benigna e passageira da democracia liberal. Na verdade, são um fenómeno político em transição, que estrutura um novo tipo de autoritarismo.

É certo que muitas destas forças participam em Governos desde a década de 90, aliadas às direitas tradicionais, crescentemente radicalizadas, e perante o esvaziamento político e ideológico da social‑democracia, desaparecida ou irrelevante em tantos países onde foi referência desde o pós‑guerra. O seu programa é o da reconfiguração das direitas clássicas. Contudo, sempre que foram maioria, exemplo da Hungria de Orbán, da América de Trump, do Brasil de Bolsonaro, ou quando tiveram força política para impor a sua agenda, como na Itália de Salvini, estas forças lidaram mal com a democracia, com o pluralismo e com os direitos sociais. A sua agenda foi a do ataque à separação de poderes e às constituições, a perseguição de minorias e de jornalistas, o reforço das milícias violentas de rua, a intoxicação massiva do debate público com manipulações e mentiras, a legitimação do racismo, a exploração do discurso de ódio e a subversão de direitos, liberdades e garantias. Trump foi ainda mais longe, ao ensaiar o não reconhecimento dos próprios resultados eleitorais e a instigação de um patético assalto ao Congresso. Só faz sentido chamar a tudo isto, como faz Marchi, de “respeito pelas regras democráticas”, se a democracia se tornar um significante vazio de significado.

 

Analisar as extremas-direitas como meras réplicas do passado pode ser tão perigoso como vê‑las como caprichos do sistema. É percebendo a sua diferença que nos preparamos para a intervenção.

 As novas extremas‑direitas são diferentes entre si, mas preconizam um novo tipo de autoritarismo, que exige reflexão e análise permanente. Analisá‑las como meras réplicas do passado pode ser tão perigoso como vê‑las como caprichos do sistema. É percebendo a sua diferença que nos preparamos para a intervenção. Foi também esse o propósito que motivou a edição deste livro.

Aqui, os leitores e as leitoras podem encontrar um conjunto de contributos interpretativos plurais e diversos que permitem avançar no conhecimento, na comparação e na caracterização destas novas extremas‑direitas. Parte destes contributos aprofunda comunicações apresentadas no “Congresso Internacional Neofascismo, Pós‑fascismo e Novas Extremas‑Direitas – Uma Visão à Escala Global”, promovido pelo Instituto de História Contemporânea (UNL) e pelo Observatório de Extrema‑Direita/Cultra, em novembro de 2020.

O livro organiza‑se em duas partes: na primeira, faz‑se uma caracterização geral das novas extremas‑direitas, no que diz respeito à sua relação com o fascismo histórico, às suas características nacionais e globais, e quanto a alguns dos seus principais eixos programáticos e de retórica política; na segunda parte do livro desenvolvem‑se de forma mais aprofundada diversos casos de estudo, em que as novas extremas‑direitas têm ganhado maior expressão política, social e eleitoral, do caso francês ao italiano, assumindo‑se a necessidade de avaliar a especificidade das extremas‑direitas peninsulares.

De que são nome as novas extremas‑direitas? Os contributos deste livro são plurais e nem todas as análises são coincidentes, desde logo por nos propormos a estudar um fenómeno político em curso e em mutação. Do nosso ponto de vista, as novas extremas‑direitas, sendo fenómenos de tipo novo, simbolizam uma nova política em que a realidade objetiva não existe, já que cada pessoa ou grupo pode observar a sua própria realidade. A nova política da extrema‑direita aposta numa experimentação social de técnicas de envolvimento compulsivo, de adesão imediata, de apelo emocional aditivado com bombardeamento de conteúdos que manipulam a realidade, através do recurso às mais sofisticadas tecnologias digitais.

Como refere Giuliano da Empoli, a comunicação política passou de “força centrípeta” a “força centrífuga”, quer dizer, se antes as diferentes forças políticas se dirigiam à generalidade das pessoas, procurando o convencimento a partir de denominadores que conquistassem maiorias, hoje podem dirigir mensagens personalizadas, para obter consumo imediato, a partir de bolhas sociais sem contraditório, em que as fake news proliferam como cogumelos. É por isso, aliás, que tantos dos textos deste livro salientam a ambiguidade discursiva da extrema‑direita, e ao mesmo tempo a sua exímia eficácia. As mensagens podem ser inverosímeis porque são dirigidas a quem lhes é sensível. Por detrás desta transformação oculta‑se o programa essencial da nova extrema‑direita: o fim da esfera pública e a morte da política.

Quando Trump, perante os resultados eleitorais de 2020, apela enlouquecido no Twitter para que os milhões que nele votaram não reconhecessem os resultados eleitorais, estava a ensaiar o derradeiro passo que faltava: a tentativa de perpetuação autoritária no poder a partir da rejeição, por milhões de pessoas, do próprio processo eleitoral. Não foi bem‑sucedido, mas o aviso está dado. Escrutinar os partidos, movimentos, agendas, discursos e estratégias da extrema‑direita, tanto nos planos nacionais como a nível global, é o contributo que este livro pretende oferecer para o debate em curso que estas reflexões estão longe de esgotar. Sabemos que o verdadeiro combate está para lá destas páginas, na proposta política, na luta social e na disputa das ideias, onde tudo se ganha e tudo se perde. Foi também para esse combate que quisemos contribuir, porque não é tempo de desistir de tudo aquilo que conquistámos, nem abdicar de um outro futuro que continua a estar ao nosso alcance.

Livro NOVAS E VELHAS EXTREMAS-DIREITAS nas livrarias


“Como explicar os fenómenos Chega, Vox, Frente Nacional, Liga, Trump ou Bolsonaro, entre outros?” é a questão que guia a obra coordenada por Cecília Honório e João Mineiro. O livro estará disponível nas livrarias, a partir desta quarta-feira, dia 4 de Agosto.


O livro, editado pela Parsifal, nasceu do colóquio organizado pela Cultra, em parceria com o Observatório da Extrema Direita e o Instituto de História Contemporânea-UNL, com o apoio da Transform Europe.

O trabalho conta com contributos de Andrea Peniche, Bruno Madeira, Cecília Honório, Daniel Pinéu, Fernando Rosas, Fransico Mangas, José Manuel Pureza, José Manuel Sobral, Manuel Loff, Steven Forti, Virgílio Borges Pereira e Xavier Casals.

Conhecer, investigar e escrutinar as características, a evolução e as estratégias de partidos e movimentos como Chega, Vox, Frente Nacional, Liga, Trump ou Bolsonaro, entre outros, foi o ponto de partida que juntou as autoras e os autores deste livro.
 

Extrema-direita: A História repete-se? | Debate